Falta de estabilidade afeta empregos de alta e baixa qualificação

5 de setembro de 2012

Luiza Pereira, 38 anos, e Teresa da Silva, 32 anos, a Tetê, são amigas e
trabalham juntas há cerca de 15 anos. São manicures e buscam sempre atuar em
dupla. Enquanto uma faz a mão, a outra faz o pé. No último ano, as duas já
trocaram de emprego três vezes. Ficaram, em média, cerca de quatro meses em cada
salão.

Luiza e Tetê têm famílias para sustentar. Ambas são responsáveis
pela maior parte da renda familiar. A constante troca de local de trabalho é um
problema na vida das duas. O setor de serviços, em que trabalham, tem índice de
37,7% de rotatividade, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), atrás da construção civil, da
agricultura e do comércio.

“Tenho medo de sair de casa de manhã e voltar
à noite demitida porque o salão fechou ou porque alguma cliente não gostou do
serviço”, disse Luiza.

De acordo com o psicólogo e professor na área de
psicologia do trabalho e saúde do trabalhador da Universidade de Campinas
(Unicamp), Roberto Heloani, a demissão é uma ameaça que ronda boa parte das
categorias profissionais. Para ele, a falta de empregabilidade afeta
trabalhadores de alta e de baixa qualificação.

“Esse medo de perder ou
reter o emprego começa na própria busca. Ter [cursado] uma faculdade não é mais
garantia. Há tempos atrás, uma pessoa de classe média fazia uma faculdade e
tinha praticamente emprego garantido. Hoje, isso não ocorre mais. Corre-se o
risco de ter feito uma universidade de primeira linha e ter dificuldade de
encontrar até um estágio. A sensação de incerteza começa cedo”, informou
Heloani.

Tetê, a manicure, explicou que, para tentar minimizar o risco de
demissão, investiu em cursos na área de estética. “Aprendi também a fazer
sobrancelhas e tratar de cabelos, como fazer hidratação e outros tipos de
tratamento. Meu sonho é ter um dia a minha clínica de estética”, disse.

O
professor Roberto Heloani alertou, no entanto, contra a busca incessante por
capacitação, que nem sempre garante o retorno pretendido. Segundo ele, a
atualização do empregado pode ajudar em certos momentos, mas não garante emprego
e estabilidade que, em muitos casos, estão relacionados a fatores que não
dependem do esforço do trabalhador – como a economia ou as finanças da
empresa.

“A lógica de qualificação que temos hoje é idealizada. Se cobra
tanto, se quer tanto, que é impossível o trabalhador cumprir todos os
requisitos. A angústia acaba sendo um sentimento onipresente. Temos que
desconstruir essa lógica. Muitos são demitidos porque são peças que não se
encaixam mais em uma jogo altamente complexo”, explicou o
professor.

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da
Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que transtornos mentais são a maior
causa de afastamento no trabalho na última década. Para Heloani, o próprio medo
do desemprego acaba levando à demissão, gerando um paradoxo.

“Em primeiro
lugar, o trabalhador não pode se culpar e acreditar que não consegue manter o
emprego por alguma deficiência ou falta de dedicação. Há uma fortíssima
tendência a fazer isso. Os danos psíquicos são muitos, o que engrossa essas
estatísticas da OIT, em que boa parte dos casos, o transtorno mental é a
depressão severa que acaba levando à incapacitação”, informou.

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Agência Brasil