As
recentes manifestações do Federal Open Market Committee (Fomc), do Fed
americano, e do Monetary Political Committee (MPC), do Bank of England (BE), dão
uma ideia clara das precárias condições em que se encontra o que se supunha ser
a “ciência monetária”. Ao tentar indicar o caminho para ultrapassar a gravíssima
crise em que o mundo vive desde a quebra do Lehman Brothers, eles mostram que
estamos em território econômico absolutamente desconhecido.
Sua exploração
deve ser feita aperfeiçoando os instrumentos construídos nos últimos 250 anos,
com a coragem e a honestidade que faltaram à profissão quando ela desenvolveu
“teorias” que justificavam, “a posteriori”, as patifarias que estavam sendo
construídas no alegre incesto entre o poder político incumbente e os sistemas
financeiros dos países.
A prova da proposição é simples: os poupadores que
entregaram seus recursos a administradores ficaram pobres e desempregados. Os
administradores ficaram trilionários e não precisam de emprego! Tudo graças à
teoria “científica” que os mercados deixados a si mesmos eram “perfeitos,
moralmente administrados e seguramente autorregulados”.
É
preciso recomendar humildade aos adoradores do “tripé”
A profissão precisa de uma grande
pajelança para livrar-se da cegueira, não apenas dos que ainda agora insistem em
aceitar tal “teoria”, como outros, que, com o mesmo nível de ingenuidade,
acreditam que o poder incumbente deixado a si mesmo é naturalmente benevolente,
onisciente, e sujeito ao imperativo categórico da absoluta impessoalidade e
honestidade…
Na última reunião, o Fomc decidiu “manter o intervalo do
‘federal funds’ (a taxa básica americana) entre 0 a 1/4% e antecipar que este
nível excepcionalmente baixo da taxa básica será apropriado enquanto a taxa de
desemprego permanecer acima de 6,5%, a taxa de inflação esperada nos próximos um
ou dois anos não seja 1/2% superior à qual estamos comprometidos como objetivo
de longo prazo (2%) e a expectativa de inflação continuar bem
ancorada”.
Lembremos que o Fed se propôs, há dois meses, a executar uma
política de “quantitative easing” (QE3) indefinidamente, enquanto um dos
elementos do par (6,5% para o desemprego ou a taxa de inflação ultrapasse 2,5%)
não for atingido. Pois bem, agora tudo parece mudado, como revela a discussão na
última ata do Fomc, onde lemos: “Muitos participantes (alguns são não votantes)
enfatizaram que o comitê deve estar preparado para variar a velocidade da compra
dos ativos (a operação QE3), seja em resposta à mudança das perspectivas
econômicas, seja pela avaliação da eficácia e custos que ela envolve. Outro
insistiu que as compras devem ser incrementais de reunião a reunião, em resposta
às novas informações sobre a economia. Outros, ainda, argumentaram que as
avaliações de eficácia e custos podem levar o comitê a reduzir o QE3, mesmo
antes que ocorra uma melhoria no mercado de trabalho. Outros lembraram que o
custo potencial de suspender ou reduzir a compra de ativos pode ser muito alto,
e que ela deve continuar até que uma mudança substancial no mercado de trabalho
tenha ocorrido”.
Fica evidente que a decisão do Fomc foi apenas uma solução
de compromisso, sem apoio factual ou forte convicção teórica. Honestamente, é
pouco provável que, com o conhecimento dessa ata, o “mercado” saiba o que o Fed
quer e que coordene as “expectativas” dos agentes na direção desejada. O
“mercado” precisa de instruções claras e explícitas: o que Fed quer é menor taxa
de desemprego, maior crescimento e um pouco mais de inflação! Então, porque não
dizer isso claramente e deixar o “mercado” apostar nesse resultado?
O mesmo
sentimento de confusão e incerteza deriva da ata do MPC, do Bank of England, de
fevereiro. O governador do BE, Mervyn King, e mais dois membros do MPC sugeriram
aumentar o “quantitative easing” inglês, mesmo diante do fato de que a taxa de
inflação excede largamente a “meta” oficial, e as expectativas inflacionárias
dos próximos dois anos excedem a meta de 2%. Foram vencidos. Os seis votos
vencedores no MPC recusaram o aumento da taxa de juros, mesmo diante do
preocupante aumento da taxa de inflação.
Uma explicação plausível para o
comportamento do MPC é que o próprio Bank of England espera a posse do seu
futuro presidente, Mark Carney (ex-presidente do Bank of Canada), que tem
manifestado a intenção de experimentar a variante da política monetária que tem
por objeto o PIB nominal.
Não passou despercebido para os analistas mais
cuidadosos que a proposta de King e seus companheiros implicava, de fato,
aceitar que um aumento do “quantitative easing” produziria um efeito mais forte
no nível de atividade que no nível de inflação, uma hipótese que nega o
monetarismo.
Na proposta, eles afirmaram que o aumento do QE “poderia ajudar
no processo de rebalancear a economia e evitar a destruição da capacidade
produtiva e o aumento do desemprego”. Isso acendeu a luz vermelha dos mais
céticos. Para esses, a expressão “rebalancear a economia” é apenas a forma
elegante e diplomática de dizer que o QE deve trabalhar na direção de
desvalorizar a libra e aumentar a exportação. Esse objetivo já fora explicitado
por King no seu discurso em Belfast, no dia 22 de janeiro.
Diante de tanta
confusão “científica”, é preciso recomendar humildade aos nossos sacerdotes
adoradores da religião do “tripé”, que supõem que não existe vida fora da
manipulação da taxa Selic.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da
FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às
terças-feiras
E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br
Fonte: Valor
Econômico