Busscar: “Quanto vale a empresa hoje? Zero.”

1 de agosto de 2012

Cláudio Nielson reconhece que Busscar não tem valor no mercado, mas
acredita que, se aprovado, plano de recuperação judicial pode reverter a
situação e trazer valorização à fabricante de ônibus.

Com menos de
uma semana para a retomada da assembleia dos credores da Busscar Ônibus S.A.,
que ocorre no dia 7, o presidente do grupo, Cláudio Nielson, diz estar confiante
de que a maioria dos votantes deseja a aprovação do plano de recuperação
judicial da companhia. Ontem, ele recebeu a “A Notícia” para uma entrevista. A
situação em nada lembrava a última conversa tida com a imprensa, em maio, quando
Cláudio apresentou slides e contou com apoio da equipe contratada para construir
a proposta de recuperação.

Acompanhado apenas por uma assessora, ele
falou durante quase uma hora. Detalhou as mudanças apresentadas na terceira
versão do plano de recuperação, encaminhada à Justiça na segunda-feira, e
confirmou que hoje a Busscar “não vale nada”. Mas disse que “passará a valer com
a aprovação do plano na assembleia”.

Cláudio reclamou que o antigo juiz
do caso, Maurício Cavallazzi Povoas, não alertou a Busscar sobre a necessidade
de adequar o texto à Lei de Recuperação Judicial e Falências. “Esses ajustes são
normais e estávamos dispostos a mudar. Não tinha nenhum tipo de ilusão sobre
isso. Mas por que ele não nos falou antes da assembleia?”.

Hoje, a
empresa tem 40 pedidos na linha de produção, que conta com 350 funcionários. O
capital para fabricar os ônibus vem de créditos de clientes e de parte do
dinheiro recebido com a venda de um terreno, no Itinga, por R$ 7 milhões. Sobre
a entrada de investidores, Cláudio é otimista, mas admite que o fato de o plano
ainda não ter sido votado gera dúvida. “Os clientes perguntam”. Também não
descarta deixar a presidência. “Se a próxima administração honrar os problemas
atuais, não vejo problemas em deixar a gestão. Não corri das responsabilidades.
Estive sempre aqui. A gestão pode até mudar, mas o CNPJ continua o mesmo. E é
preciso responder por tudo.”

A equipe

O plano de
recuperação da Busscar está na terceira versão desde a suspensão da assembleia
geral de credores, em maio. Desde então, a equipe que assessora a companhia não
para. Além de funcionários, estão neste processo um escritórios de advocacia,
uma empresa especializada em reestruturação e uma assessoria de empresa. “Está
sendo um trabalho tranquilo. Estou satisfeito. Temos uma equipe dinâmica e
rápida que percebeu os requisitos necessários para este processo. Mesmo a lei de
recuperação sendo nova, o pessoal tem experiência”, conta Cláudio Nielson. Ele
garante que a complexidade do caso ficou clara desde o início do processo.
“Alterações são comuns em recuperação judicial. Por tudo o que vi pelo Brasil,
desconheço casos que tenham sido lineares, sem ajustes no plano. “Nem a mudança
do juiz do caso pareceu preocupar Cláudio. “É um processo natural dentro da
própria Justiça. Desde que o novo juiz chegou, tive apenas uma rápida conversa
com ele.”

As assembleias

“Acredito que a próxima
assembleia será mais tranquila em relação à primeira. Os credores já foram
credenciados. É só questão de ouvir algumas opiniões e abrir a votação”, afirma
Cláudio Nielson. Ele acredita que os ânimos exaltados da assembleia de maio não
serão repetidos. “Imagina quem chegou às 8 horas da manhã. Eram quatro da tarde
e nada tinha saído do lugar ainda. Isso dá cansaço físico, lógico.” Quanto às
declarações de representantes que usaram o direito da palavra para afirmar que
apresentariam propostas alternativas viáveis, Cláudio diz que se trata de
estratégia de intimidação. “Aquilo foi mais para testar reações do que para
firmar um compromisso de encontrar uma solução. Cacarejar, cacarejar e não botar
o ovo não resolve nada.” O presidente não foi na primeira assembleia e nem irá
na próxima. “A gente acompanha de longe dentro do possível. Sempre com
discernimento e maturidade para aguardar os resultados. Mas as expectativas são
positivas. Vamos aprovar o plano. Depois, é muito trabalho para fazer a empresa
voltar a rodar.”

Outro plano

Cláudio Nielson diz
que não é possível adotar a proposta entregue por Dicler de Assunção, advogado
dos ex-sócios Randolfo Raiter e Valdir Nielson, para recuperar a Busscar. “Mudar
por mudar, fico com o que aí está. O que eles estão sugerindo é crime fiscal.
Tanto criticaram os descontos na classe dos credores trabalhistas e estão
sugerindo a mesma coisa. O que eles criaram é uma cópia piorada do nosso plano,
propondo vender toda a Busscar sem ter o compromisso com a sociedade de manter
empregos e ainda colocam o poder de decisão sobre os maiores credores (os
ex-sócios têm R$ 304 milhões a receber). E eu sou o vilão da história?” Cláudio
diz que a proposta entregue pelo advogado só aumentaria os problemas da empresa.
“O que ele está propondo é que eu fique com a Tecnofibras, que é pequena, e com
um problema enorme. Os clientes irão embora, herdarei questões imensas da
Busscar. Não vejo que essa proposta vá ter apoio dos credores. A gente leva
paulada, mas está mostrando um plano que é possível de ser aplicado. Apanho
calado, mas trabalho.”

As ações

A questão da
conversão dos créditos trabalhistas em ações da Busscar está de acordo com a
lei, segundo Cláudio Nielson. As últimas modificações se referem à hipótese de a
empresa querer recomprar todos os títulos de uma só vez. Com a aprovação do
plano, 12% da empresa passarão a ser dos funcionários. “Se precisarmos negociar
a Busscar com possíveis investidores que fazem questão da participação total da
empresa, será preciso recomprar as ações e pagar todo mundo à vista no 12º mês.
Caso contrário, segue a proposta de quitar a dívida restante em 30 meses no caso
dos trabalhadores que optarem pela venda das ações”, explica. Quanto ao valor
destes títulos, ele afirma que deve variar conforme a quantia que cada um tem a
receber. Mas, no momento, eles não têm valor. “Quanto vale a empresa hoje? Zero.
As ações não valem nada. A empresa precisa voltar a ter valor. O trabalhador
deverá analisar o desempenho da Busscar e, se julgar ser um negócio lucrativo,
ter paciência para que as ações valorizem no mercado”. Quem não quiser aguardar
as movimentações para identificar a possível recuperação da empresa e a
valorização dos títulos, terá entre os 12º e 24º meses para
vendê-las.

* A Notícia